domingo, 23 de agosto de 2026

As lições da água: uma cronologia da não-tação

Sempre quis aprender a nadar, porque sempre tive medo de água. Engraçado: sempre tive medo de altura, mas não quero aprender a estar no alto. Acho que, mais que o ar, o elemento que mais tem a me ensinar é a água. Porque eu sou o exato oposto dela. 

A água é leve? Eu sou pesada. 

A água flui? Eu fico estancada. 

A água desvia do obstáculo? Eu me apego. 

Sempre achei que a água teria muito a me ensinar. 

 

Quando criança, quase nunca ia à praia. Coisa peculiar para uma cidade como Nápoles, que vive de mar. Eu vivia o mar, respirava o mar, e, embora morasse na periferia, o mar estava por todos os lados. O via quando saía para fazer qualquer coisa, mas não tinha a relação praia → lazer, mar→ descansar, água → nadar. Para mim, a relação era mar → área nobre da cidade. 

Quando eu tinha 7/8 anos, por aí, no verão, íamos 4 dias à praia. Normalmente era mais um estresse, pois o meu pai e a minha mãe brigavam muito, já que o preparo para sair para ir à praia, em uma família pobre, era infinito, porque tínhamos que levar tudo. A minha mãe, mulher do sul, achava que tivéssemos que comer como se fosse dia de domingo e o meu pai, homem do sul, gostava de comer como se fosse dia de domingo. 

Enfim, um estresse. 

Mas tinham duas coisas que eu achava bem legal: 

i) quando chegava por volta das 14.00 horas e o sol estava mais forte, eu dormia na sombra do guarda-sol na espreguiçadeira, que na verdade a gente chama de lettino (caminha), pois é uma verdadeira cama. Era uma sensação que adorava: perder aos poucos os sentidos com aquele barulho de fundo de praia que não é só mar, mas pessoas falando, crianças brincando com areia, tudo misturado a um leve perfume de creme bronzeador;  

ii) quando, voltando para casa de carro, meu pai pegava a estrada e eu abria a janela e, como costumo dizer, o vento no cabelo esticava o pensamento. Era uma ventania na cara de não conseguir respirar direito e nem abrir os olhos. Adorava essa sensação de tonteira! 


Voltando à praia, minha mãe, como uma boa mulher de campo, tinha um medo fodido de água e vivia botando medo e pressão para não irmos muito longe, até porque uma vez, mil anos antes, na Calábria, na casa de uma tia - pois a gente só ia muito longe quando era na casa de alguém bem conhecido e que pudesse dar hospitalidade - eu praticamente me joguei na água, uma onda me levou, me revirou e me cuspiu de novo à beira. Eu nem lembrava mais desse evento, mas, na memória dos meus pais, parecia vívido e ainda ameaçador. Meu pai, por sua conta, tentava me ensinar a nadar, mas acho que, primeiro, não tinha paciência, segundo, não tinha técnica e o medo que a minha mãe incutia tomava o controle. 

Aconteceu que os tempos mudaram e aprendi a me sustentar na água, não um verdadeiro nadar, mas um boiar. Já estava com 13/14 anos e já era uma época em que eu e as minhas irmãs íamos sozinhas à praia. Me lembro que estávamos as três irmãs e mais algumas amigas numa praia fora da cidade, Licola. Um litoral destruído pelo abusivismo e arruinado pela população que se comporta como gafanhotos. 

Naquele dia, a minha irmã mais velha que, se eu sou o nadir, ela é o meu zenit, me incentivou a entrar em alto mar e, caso eu cansasse ou não conseguisse mais me sustentar, poderia me apoiar nela. O mar não estava agitado, mas era aquele mar esquisito de Licola, a maré baixa e levanta muito rápido. Daí, eu, com medo, comecei a "nadar/boiar”, mas, de repente, o mar encheu e começaram a chegar ondas muito fortes e eu tentava me apoiar na minha irmã, que, porém, ao contrário do que dizia, também não sabia nadar muito melhor que eu. 

Graças às Deusas, um jovem lindo e maravilhoso, que não era o salva-vidas, veio me resgatar. 

Depois, tive que aturar a ridicularização da minha irmã com o cara e as pessoas presentes. Não se mencionou o fato de que havia sido ela a me convencer a entrar e que ela não soubesse nadar tão bem também, mas o fato de que eu quase afoguei ela, tentando me sustentar. 

Tudo bem, a gente aprende a amar a família, né? 


Dito isso, o tempo passa, e quando eu tinha 16 anos, com a minha outra  irmã - sem a qual sou como avião sem asa, fogueira sem brasa etc. etc. - fomos à praia em Sorrento. Na época, estávamos eu, ela e uma grande amiga nossa. Fomos passar uma semana numa casa de férias onde trabalhava como doméstica a minha tia (minha segunda mãe). 

Na época, a minha tia ainda estava trabalhando na casa de Nápoles, porque a maioria das pessoas da família ainda estava lá. Nessa casa em Sorrento, só tinha uma senhora idosa que não ouvia bem, era a matrona dessa família, que passava parte do verão sozinha, enquanto os filhos terminavam os trabalhos e faziam outras viagens. 

A ideia era deixar a senhora com alguma companhia e fazer com que nós, que nunca saíamos de férias, tivéssemos alguns dias de praia para espairecer numa casa de praia sem ter que ir e voltar de trem. 

O nosso lugar favorito era em cima de umas pedras muito perto do Hotel Lorely, que ainda hoje existe, só que agora se chama Lorely-Londra (algum inglês endinheirado deve ter comprado, como acontece em muitos lugares da Itália).  



Esse lugar era muito lindo, descia-se com um elevador até uma pedra, onde ficávamos horas a fio torrando ao sol. Antes de descer, você conseguia ver, do alto, as rochas embaixo do mar cristalino de mil cores de azul. Uma vez lá embaixo, nos infiltrávamos na parte das rochas que correspondia à saída direta de um hotel chic. Ou seja, descíamos com o elevador e, na parte de baixo, tinha uma ponte que ia para dentro da água. Esta ponte pertencia a um estabelecimento, e, se você quisesse, podia pagar para ter facilities, como cadeira para sentar etc, mas andando pelas rochas você conseguia chegar numa parte que correspondia, como dito antes, à saída de um hotel. 

Lá, as pessoas eram menos barulhentas, a maioria nórdica, brancos cadavéricos ou com ridículas marcas de sol. Os americanos barulhentos ficavam na piscina do hotel, do lado de cima das pedras, e conseguíamos, de vez em quando, ouvir algo. Nessa parte das rochas também havia uma ponte com escadinha para poder entrar no mar. Me lembro que eu ficava muito tempo olhando ingleses, alemães e dinamarqueses nadarem como rãs para aprender com eles. Uma vez, uma senhora ficou me olhando e me corrigiu. 

Enfim, estava conseguindo nadar mais ou menos. Quando cansava me apoiava à escadinha que descia na água e quando chegava algum navio, normalmente a chegada era precedida por um apito, e as ondas se levantavam, se eu estivesse um pouco mais longe, fazia de tudo para voltar rapidinho para a escada. 

Acho que o que nunca consegui fazer foi lidar com as ondas. Ou seja, fluir com o andamento do mar. Sempre quis controlar o mar também, só que o mar sempre mandou eu me foder. Me lembro que toda vez que escutava o apito, minha irmã e minha amiga falavam Agora a Irma vai começar a fugir em direção da escada, eu começava a rir, bebia muita água e chegava na escadinha exausta. Foi um dos melhores verões da minha vida, e, ao final, eu tinha a sensação de que tinha aprendido a nadar. Um problema nos anos seguintes foi que eu só conseguia nadar melhor quando ia numa praia com rochas e me jogava no mar, descendo pela escadinha, onde já não tinha como tocar o fundo. Caso entrasse numa praia onde era preciso entrar no mar andando, para mim era mais difícil desvencilhar o meu pezinho do fundo e conseguir ir onde não tocasse. 


Agora faremos um salto gigante. Dos meus 16 anos vamos direto para os meus 26. Ninguém acredita quando eu conto, mas trabalhei, primeiro através de uma agência e por conta própria depois, como babá de uma das famílias mais ricas que já conheci, mais ricas até mesmo do que meus riquíssimos alunos brasileiros.  

Eu era uma babá que falava inglês. Really glamour. No meu primeiro dia de trabalho, era verão e estava em Capri, me chamaram junto com a menina e com toda a serventia para irmos dar um oi para o patriarca da família. Bom, a história quis que estivesse todo mundo num penhasco desses de Capri, de uma vila absurda, debruçada nos Faraglioni. Pensei: bem, o cara vai chegar de barco, pois esse pessoal costuma ter. Só que não: o cara passou de helicóptero. Era com essa família que eu ia passar o verão. 

Passaram-se os dias e, com o barco particular deles, fomos para a Sardegna. 

Além das inúmeras histórias que teria para contar, aqui vai aquela que tem a ver com natação. 

Estávamos no meio do mar e eu na água com a menina e a mãe. Eles sabiam que eu não conseguia nadar bem. A menina estava com uma bóia e a mãe meio que segurando nela também. O pai da menina fez subir a menina e para “brincar” comigo e com a mãe nos deixou sozinhas no meio do mar e foi embora com o barco, para bem longe… a mãe da menina ainda estava com a bóia e nadava bem, eu, por outro lado, tive que lutar muito para chegarmos no lugar onde estava o barco. Acho que esse é o tipo de brincadeira que rico faz, sem se dar conta que está humilhando as pessoas envolvidas e sem saber que está colocando você em perigo. 

Quando finalmente cheguei, morta, sem fôlego e com os braços ardendo no barco, o pai da menina me disse: assim você aprende a nadar. No fim do verão, fomos de helicóptero a Panarea, uma ilha paradisíaca da Sicília. Como de costume, me deixaram não só com uma criança, mas com todos os amiguinhos. Quando já estávamos indo embora e os amiguinhos deveriam estar com os pais, eu estava penteando a menina que eu tomava conta… de repente, uma das amiguinhas de três anos se joga na piscina e a mãe, fazendo não sei o quê, não tinha reparado. Assim, o que a babá (ou seja eu) fez? Se jogou na piscina com toda a roupa para salvar a menina. Então eu, que já não sabia nadar, fui colecionando experiências traumáticas com a água. 


Depois, entre Portugal e Brasil, a minha vida foi dividida entre litorais do mesmo oceano no qual nem me atrevia a nadar. Longe de ser aquela piscina calma que é o Mediterrâneo, o oceano nunca me deixou à vontade para nadar, parecia a metáfora das minhas fases da vida no exterior: movimentado, com fases de ondas altas e baixas, difícil de atravessar de maneira linear. Enfim, aquele cansaço continuado para conseguir a estabilidade.


No dia do aniversário da minha mãe fui para a confeitaria Colombo, e fiquei alucinada com as pessoas nadando no mar de Copacabana, balançando naquela água com reflexo de sol. Elas me remeteram ao líquido amniótico, a um relaxar que talvez nunca tenha conhecido, a não ser na barriga da minha mãe. 

Desde que estou no Rio, nunca relaxei, sempre correndo atrás do visto, do trabalho, do doutorado, do documento tal, do pós-doc, de mais um trabalho e me dei conta de que nunca me permiti a possibilidade de soltar, deixar as coisas fluírem. Me furtar do controle, porque, no fundo, o meu corpo foi acostumado a estar em alarme, a lutar pelas coisas que talvez não viessem. 

Esse alerta constante levo comigo quando vou ao mar. O medo de que a água me leve para onde não quero, de lutar contra uma força superior à minha. A incapacidade de soltar, confiar no caminho da água e no corpo que sabe o que fazer.






Sempre quis aprender a nadar porque sempre tive medo de água.
Sempre quis aprender a nadar porque a água tem muito a me ensinar.


"In water like in books you can leave your life." (The Cronology of Water - Kristen Stewart, 2025)

"How many miles does it take to swim to a self, how many fucking miles?" (The Cronology of Water - Kristen Stewart, 2025)








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