sábado, 11 de julho de 2026

Diga como ama e te direi quem és

Estou lendo alguns ensaios sobre romance e confesso que eu passo realmente muita raiva com alguns especialistas eméritos, intelectuais e escritores. 

O livro "A cultura do romance", organizado por Franco Moretti, é aberto por um ensaio do superglorificado Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936 - Lima, 2025), intitulado É possível pensar o mundo moderno sem romance?, que mexeu com uma série de questões que vêm da minha origem: o fato de não circular livros na minha casa, o fato de existir uma contação de história principalmente oral e não escrita, o fato de que a minha condição de vida de universitária e trabalhadora tem feito com que muitas das minhas leituras tenham sido feitas em pé, num ônibus, num metrô ou entre uma pausa e outra roubadas do trabalho.

Já que não estou escrevendo nem um artigo científico, nem uma tese de doutorado, vou me dar a liberdade de falar só e exclusivamente das minhas opiniões e elaborarei algumas reflexões a partir do meu conhecimento de mundo, o qual, naturalmente, já está permeado por todas as leituras que fiz – literal ou metaforicamente entendidas. 

O supracitado ensaio, com o qual se abre a coletânea, aborda a literatura num viés extremamente elitista, além de cometer, mais uma vez, o erro de rebaixar a cultura pop e popular, na tentativa de enaltecer a leitura, sacralizar o ato de ler e tornar o leitor especializado, que tem o privilégio de ler em determinadas condições, um ser superior. Isso cria uma distância de cunho quase medieval entre o que seria culto (ou, melhor, cult bacaninha) e o que seria baixo. 

O grande erro, muitas vezes cometido por intelectuais e acadêmicos, é que, a fim de enaltecer atividades como a leitura e campos do saber (e entretenimento?) como a literatura, etiquetam como negativos e mesquinhos todos os outros campos e formas de entretenimento de massa. Esta atitude, por óbvias razões, traz uma visão extremamente classista e elitizada sobre como a população passa o seu próprio tempo e, particularmente, sobre as possibilidades de acesso aos livros, que, hoje, nem sempre são de natureza financeira, mas dizem muito mais sobre as informações que as pessoas acessam (leia-se scroll infinito no ônibus para voltar para a periferia) e o estilo de vida que levam (leia-se escala 6x1). 

Vamos analisar algumas das afirmações de Vargas Llosa: "O amor e o prazer  seriam mais pobres, privados de delicadeza e de distinção, da intensidade a que chegam todos aqueles que se educaram e estimularam com a sensibilidade e as fantasias literárias. Não é exagero afirmar que um casal que haja lido Garcilaso, Petrarca, Góngora e Baudelaire ama e usufrui mais do que outro, de analfabetos semi-idiotizados pelas séries de TV. Em um mundo iletrado, o amor e a fruição não seriam passíveis de ser diferenciados dos que satisfazem os animais, não iriam além da mera satisfação dos instintos elementares: couplar e devorar." (Llosa In Moretti, 2009).

Tem vários tipos de elitismo que se concentram nessa afirmação: o primeiro é que o amor seja algo da ordem platônica, como se existisse uma ideia perfeita de amor, que os humanos imperfeitos deveriam tentar reproduzir, e, é claro, os de que Petrarca, Góngora e Baudelaire seriam o exemplo máximo, uma espécie de teoria da mímese de classe. 

O amor perfeito seria o dos que se alimentam de sonetos, que ficam se olhando por horas a fio, enquanto quem transa teria só uma vulgar opacidade de amor consumido no corpo, que Llosa etiqueta com as palavras couplar e devorar. Fica a dúvida sobre em que mundo vivia Vargas Llosa quando escreveu essa frase, e, por óbvias razões, sobre a adolescência que teve. 

Amor é, antes de tudo, atração. Uma atração que pode ser intelectual, certo, mas que dificilmente se desvencilha da atração física. Que coisa intelectualmente desonesta e banal comparar os amores de Petrarca, de Garcilaso e de toda a companhia cortesã com o tipo de relação a qual cada comum mortal deveria almejar. Aliás, que as Deusas me livrem de ter um amor tão atribulado como o de Petrarca. Tirando a percentagem assexuada que existe na terra, o fim último (e sempre o primeiro desencadeador) dos encontros é se unir carnalmente ao outro (para não usar um verbo que ofenderia quem se nutre de amor platônico). É ou não é o desejo que movimenta o amor? E, se falarmos em desejo, tenho a certeza de que não estamos falando só de trocas intelectuais. Essa afirmação corrobora como a dicotomia mente e corpo, mesmo com o esforço de Espinoza (alguns séculos atrás já), ainda não tenha sido superada. 

Isso revela como as civilizações de valores ocidentalizados continuam se apoiando em dicotomias cartesianas e numa moralidade de cunho cristão, dividindo exatamente o certo do errado, o bom do ruim, o aceitável do inaceitável. Vale a pena observar que essa forma de ver o amor como o encontro de duas almas é mais uma hipocrisia das civilizações ocidentais e ocidentalizadas, fundadas na família e no casamento, mas que, com a perpetração da traição, que seria nada menos nada mais que a realização do amor/desejo corporal, conseguem se sustentar em pé. De um lado, o amor platônico, sem sexo e só declamando sonetos; do outro lado, a traição (que importa, se ninguém sabe?!). 

Como diria o Foucault, da História da sexualidade, é o contradiscurso, como válvula de escape, que sustenta o próprio discurso dominante. Aliás, dito com toda a sinceridade, eu não acho nem um pouco que o amor de duas pessoas que moram em alguma periferia da América Latina (ou de qualquer periferia do mundo) e que se enchem de séries, seja isento, necessariamente das "delicadezas" do amor platônico. É como dizer que quem não tem acesso às finezas da cultura e do saber não sabe amar, não é suscetível aos sentires de todos os seres humanos, não alcança aquela universalidade que uma leitura etnocêntrica da literatura quer impor. Como se explicaria, então, o Leonardo Bastião do sertão brasileiro falando de solidão, morte, vida, sem saber ler nem escrever?



Aí vem o segundo questionamento: outra coisa que a elite de intelectuais faz, e Vargas Llosa mantém alta a bandeira, é a demonização das séries televisivas ou de qualquer produto que tenha tido uma circulação de massa. Conheço bons escritores que escrevem séries maravilhosas, assim como séries retiradas de romances ou de fatos históricos muito bem feitas e que dão ao grande público conhecimento de coisas que de outra forma jamais descobriria. No fundo, nem todo o mundo está fazendo mestrado ou doutorado e nem todo o mundo teve acesso a uma instrução de qualidade com a mesma facilidade com a qual se tem acesso à Netflix. 

As pessoas ainda trabalham, em sua maioria, na escala 6x1, e, mesmo se a série não for de grande qualidade, elas precisam de alguma válvula de escape. Você vai culpar o pobre por usar o entretenimento como forma de fugir de um mundo injusto por uma hora de descanso que seja? Para ir para o teatro, para o cinema ou qualquer outro tipo de entretenimento "mais conceituado”, na escala de valores da intelectualidade, as pessoas precisam de duas coisas: tempo e recursos. Perdão, de mais uma: de uma instrução anterior que lhe tenha permitido ter discernimento sobre produtos culturais, além de lhe ter proporcionado a possibilidade de formar um gosto próprio. 

Isso me remete ao grande esforço que fiz para preencher os descompassos no meu conhecimento de música e de cinema. Pois, em casa de operário não entra disco e não se sai para ir ao cinema. Essas foram conquistas que eu fiz adulta, mas isso só porque fui uma pobre de primeiro mundo, onde a educação básica de graça e de qualidade me impulsionou para determinados caminhos. 

Se uma série, como já mencionado, permite a algumas pessoas acessar assuntos e conhecimentos que antes não tinham, isso é ruim, só porque é no formato mainstream? E por que razão essas pessoas amariam pior? Por que dariam mais espaço a sua própria animalidade? E por que o sexo, fazer amor, seria uma coisa tão depreciável? 

A afirmação de Vargas Llosa, na sua inteireza, me parece se aproximar do que Eduardo Galeano sempre definiu como a criminalização da pobreza, conceito que nesse caso deveria ser redefinido como idiotização da pobreza: julgar negativamente quem não tem acesso à uma formação culta, por não ler o que os cultos acham que deveria ser lido e por essa razão etiquetá-lo como idiotas. Vargas Llosa esquece que ele fez parte daquela grande elite latino-americana que há séculos perpetua as desigualdades sociais que causam discrepância de formação entre as pessoas.

Mas o show das banalidades com calda de preconceito ainda não terminou. Assim escreve o emeritíssimo: "Um dos primeiros efeitos benéficos [da partilha do romance] se verifica no plano da linguagem. Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuanças e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, muito se pareceria com uma comunidade de tartamudos afásicos, atormentadas por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar." (Llosa In Moretti, p. 23). 

Essa afirmação, do meu ponto de vista, carece de dois aspectos de análise. O primeiro é que a literatura inteira nasce da oralidade, falarei banalidades também, mas o cerne da épica grega nasce como algo oral: Ilíada e Odisseia. Essa literatura nasce como entretenimento oral, e era, pelos recursos retóricos (epítetos, figuras retóricas e simbolismos rebuscados e meticulosos) extremamente precisa (naquilo que contava) e rica (em imagens). O segundo é que essa declaração está completamente desatualizada com relação aos avanços dos estudos literários que finalmente estão começando a ser menos logocêntricos, admitindo conceitos tais como oralitura para falar de todo o grande acervo de literatura oral de muitas povoações do globo, isso graças também aos estudos pós-coloniais. Afirmar que os povos que não possuem a forma sensível do romance para contar histórias e não usam a palavra escrita são menos precisos ou compará-los a tartamudos afásicos me faz, como dizemos em Nápoli, ferver o sangue nas veias. Estou puta. 

Concluindo, gostaria de esmiuçar uma última afirmação: "Para formar cidadãos críticos e independentes, difíceis de manipular, em permanente mobilização espiritual e com uma imaginação inquieta, nada melhor do que bons romances." (Llosa In Moretti, p. 23). Na época em que estava envolvida em movimentos políticos na Itália, um amigo meu, para ferir quem falava banalidades, dizia: Penose rielaborazioni dell’ovvio, isto é, penosas reelaborações do óbvio

Querido Vargas Llosa, gostaria de dizer que o que o mundo precisaria, antes de tudo, seria entender por que as pessoas não leem romances, em vez de acusá-las por não fazê-lo. Depois, em um segundo momento, os professores do mundo inteiro deveriam se perguntar como fazer com que os estudantes lessem criticamente, mas, antes de fazer isso, ainda deveríamos deixar de colocar o fardo da mudança do mundo nas costas dos professores, oferecer a eles salários melhores, fornecer apoio psicológico e formação permanente.



Referência: LLOSA, Vargas Mario. “É possível pensar o mundo moderno sem romance?” In:  A Cultura do Romance. Org. Franco Moretti. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

LAPA, LAPA, LAPA

Uma das primeiras lembranças que eu tenho do Brasil são as inúmeras vans irregulares que aceleravam pelas ruas da zona Sul em direção a qualquer lugar do Rio. Me vêm em mente coisas que jamais voltaria a fazer, como ficar sozinha meio bêbada e dormente na van em direção de casa. Bendita juventude. Mas essa, é história de outra vida. De alguma maneira quando penso na Lapa, penso antes de tudo nessa fala primordial que aprendi no Rio quando a van parava em algum lugar e o cara meio suspenso entre a van a rua com a mão para fora dizia: Lapa, Lapa, Lapa


Assim esse será o ensaio Lapa, Lapa, Lapa. Poderia ter evitado essa premissa? Poderia.



Vertigem para baixo.

Caipirinha matadora. 

Pés suspensos cruzados.

Quero ver também. 

As cidades delgadas (ou sutis). 

Pés suspensos em repouso.








 















 



domingo, 12 de abril de 2026

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quem é o culpado?

Quem é o culpado? 

Atualmente, estou relendo “Os noivos” (1840/42), de Alessandro Manzoni, com um aluno meu, e uma das partes de que gosto mais é quando se fala da peste de 1630 em Milão e de como a população reagia perante um flagelo desse. 

O povo, dizimado e prosternado pela doença, precisa achar uma razão para a epidemia horrível que está acontecendo. Racionalizar aquilo de alguma maneira, mesmo que a forma seja a mais irracional possível. 

Quem é o culpado? 

Quando há uma situação de difícil resolução, cujas causas poderiam envolver também atitudes pessoais, o mais fácil a fazer é se perguntar: quem é o culpado? Lembremos que, no meio da epidemia de peste de 1630, descrita no livro, os decuriões pediram ao Cardeal Federigo Borromeo para organizar uma procissão com as relíquias de São Carlos para exorcizar a doença. O resultado dessa aglomeração nem é preciso comentar.
Aglomeração = ...

Portanto, quem é o culpado? É necessário achar. 

Nem que seja só pela possibilidade de dizer: não fui eu e, finalmente, ter com quem se zangar. O ser humano, independentemente da época histórica, tem uma tendência a justificar as próprias atitudes e a olhar com reprovação as dos outros. Como se na divisão do bem e do mal, numa perspectiva maniqueísta, ele estivesse sempre envolvido na esfera do bem, incapaz de se enxergar em toda a sua complexidade, mas conseguindo, sim, enxergar o próximo em todas as suas imperfeições, invejas e maldades.

Os culpados pela peste eram os assim chamados "untori", pessoas que iam às ruas com pequenos frascos com um óleo infectado, aspergindo-o e incentivando o proliferar da doença. Assim, por fim, havia um culpado. Havia alguém com quem se zangar. 

Essa é uma dinâmica coletiva da qual tiram grande proveito os governantes para criar divisões funcionais: na Itália e nos Estados Unidos, o problema são os migrantes; no Oriente Médio, são os muçulmanos terroristas; e poderíamos seguir ao infinito com a longa cadeia de lugares comuns, infundados e racistas. 

Mas o que me interessa hoje é comparar essa forma de agir do ser humano com uma esfera particular. Como agimos quando pensamos em nossas vidas, quando as coisas não funcionam, quando temos uma frustração ou algo não foi exatamente como queríamos? Tenho observado, por experiência própria, que a dinâmica não muda, nos enxergamos sempre como o bem, vendo no outro o mal, a causa do nosso mal-estar, a razão do desencadear-se de algo que tem a ver exclusivamente com a gente. Só conosco. Escutando amigas/amigos, conhecidas/os, familiares, tenho ficado bastante pensativa. As pessoas, na maioria das vezes, parecem incapazes de fazer uma leitura dos próprios erros, das próprias faltas e sempre tendem a culpar o outro por algo que não chegou a acontecer, por algo que lhes falta, por algo que aconteceu; pela sua infelicidade ou incapacidade de perceber que felicidade pode ser simples equilíbrio.

Eu mesma tenho sido alvo dessa dinâmica. Tenho sido a "untora" de alguém e isso tem me afetado profundamente. Uma pessoa me disse, em uma discussão, onde ela estava insatisfeita com tudo, que eu, e nada menos do que eu, era a causa dos problemas de autoestima dela. Eu pensei: como isso poderia ser possível? Sempre tentei colocá-la para cima, sempre usando uma palavra para deixá-la bem, tentando envolvê-la em situações e dinâmicas sociais. Isso me deixou muito desconcertada. Tenho passado noites sem dormir, acordando e revendo a pessoa apontando o dedo para mim e dizendo: "por sua causa tenho problema de autoestima". Quando eu lhe disse que esse sentimento falava muito mais sobre ela, a resposta foi que se isso acontecia SÓ comigo, eu tinha que me questionar. Fiquei transtornada. 

Revisitando os fatos, eu tenho me feito não uma, mas muitas perguntas, e a única resposta que tenho é que, quando a dificuldade em enfrentar os próprios fantasmas é muito grande, a solução mais fácil é atribuir ao outro a causa dos nossos problemas, pois isso nos poupa de perguntas, dúvidas, ansiedade, capacidade de se aceitar como uma pessoa imperfeita, capacidade de aceitar os outros como eles são. 

Observando o entorno de amizades dessa pessoa, tenho me perguntando se ela faria a mesma coisa com outr* amig* e a resposta é: não. 

A partir desta reflexão, cheguei a uma conclusão: as pessoas dizem e fazem conosco só aquilo que  permitimos. Essa pessoa especificamente jamais faria isso com outros, mas se sentiu à vontade para fazê-lo comigo, porque sempre fui, de alguma maneira, atenciosa com ela, sempre deixei a minha energia aberta para ela e à sua disposição. Inconscientemente, ela sabia que eu era um alvo fácil para sugar atenção e suprir de alguma maneira aquelas faltas que ela sente. Mas, dessa vez, decidi me proteger. Chega a maturidade, a capacidade de não se anular pelo outro, apesar de ser alguém importante na sua história de vida, e de entender os limites de cada situação. É assim que crescemos e quem fica é para valer. Isso à beira dos meus quarenta.