Quem é o culpado?
Atualmente, estou relendo “Os noivos” (1840/42), de Alessandro Manzoni, com um aluno meu, e uma das partes de que gosto mais é quando se fala da peste de 1630 em Milão e de como a população reagia perante um flagelo desse.
O povo, dizimado e prosternado pela doença, precisa achar uma razão para a epidemia horrível que está acontecendo. Racionalizar aquilo de alguma maneira, mesmo que a forma seja a mais irracional possível.
Quem é o culpado?
Quando há uma situação de difícil resolução, cujas causas poderiam envolver também atitudes pessoais, o mais fácil a fazer é se perguntar: quem é o culpado? Lembremos que, no meio da epidemia de peste de 1630, descrita no livro, os decuriões pediram ao Cardeal Federigo Borromeo para organizar uma procissão com as relíquias de São Carlos para exorcizar a doença. O resultado dessa aglomeração nem é preciso comentar.
Aglomeração = ...
Portanto, quem é o culpado? É necessário achar.
Nem que seja só pela possibilidade de dizer: não fui eu e, finalmente, ter com quem se zangar. O ser humano, independentemente da época histórica, tem uma tendência a justificar as próprias atitudes e a olhar com reprovação as dos outros. Como se na divisão do bem e do mal, numa perspectiva maniqueísta, ele estivesse sempre envolvido na esfera do bem, incapaz de se enxergar em toda a sua complexidade, mas conseguindo, sim, enxergar o próximo em todas as suas imperfeições, invejas e maldades.
Os culpados pela peste eram os assim chamados "untori", pessoas que iam às ruas com pequenos frascos com um óleo infectado, aspergindo-o e incentivando o proliferar da doença. Assim, por fim, havia um culpado. Havia alguém com quem se zangar.
Essa é uma dinâmica coletiva da qual tiram grande proveito os governantes para criar divisões funcionais: na Itália e nos Estados Unidos, o problema são os migrantes; no Oriente Médio, são os muçulmanos terroristas; e poderíamos seguir ao infinito com a longa cadeia de lugares comuns, infundados e racistas.
Mas o que me interessa hoje é comparar essa forma de agir do ser humano com uma esfera particular. Como agimos quando pensamos em nossas vidas, quando as coisas não funcionam, quando temos uma frustração ou algo não foi exatamente como queríamos? Tenho observado, por experiência própria, que a dinâmica não muda, nos enxergamos sempre como o bem, vendo no outro o mal, a causa do nosso mal-estar, a razão do desencadear-se de algo que tem a ver exclusivamente com a gente. Só conosco. Escutando amigas/amigos, conhecidas/os, familiares, tenho ficado bastante pensativa. As pessoas, na maioria das vezes, parecem incapazes de fazer uma leitura dos próprios erros, das próprias faltas e sempre tendem a culpar o outro por algo que não chegou a acontecer, por algo que lhes falta, por algo que aconteceu; pela sua infelicidade ou incapacidade de perceber que felicidade pode ser simples equilíbrio.Eu mesma tenho sido alvo dessa dinâmica. Tenho sido a "untora" de alguém e isso tem me afetado profundamente. Uma pessoa me disse, em uma discussão, onde ela estava insatisfeita com tudo, que eu, e nada menos do que eu, era a causa dos problemas de autoestima dela. Eu pensei: como isso poderia ser possível? Sempre tentei colocá-la para cima, sempre usando uma palavra para deixá-la bem, tentando envolvê-la em situações e dinâmicas sociais. Isso me deixou muito desconcertada. Tenho passado noites sem dormir, acordando e revendo a pessoa apontando o dedo para mim e dizendo: "por sua causa tenho problema de autoestima". Quando eu lhe disse que esse sentimento falava muito mais sobre ela, a resposta foi que se isso acontecia SÓ comigo, eu tinha que me questionar. Fiquei transtornada.
Revisitando os fatos, eu tenho me feito não uma, mas muitas perguntas, e a única resposta que tenho é que, quando a dificuldade em enfrentar os próprios fantasmas é muito grande, a solução mais fácil é atribuir ao outro a causa dos nossos problemas, pois isso nos poupa de perguntas, dúvidas, ansiedade, capacidade de se aceitar como uma pessoa imperfeita, capacidade de aceitar os outros como eles são.
Observando o entorno de amizades dessa pessoa, tenho me perguntando se ela faria a mesma coisa com outr* amig* e a resposta é: não.
A partir desta reflexão, cheguei a uma conclusão: as pessoas dizem e fazem conosco só aquilo que permitimos. Essa pessoa especificamente jamais faria isso com outros, mas se sentiu à vontade para fazê-lo comigo, porque sempre fui, de alguma maneira, atenciosa com ela, sempre deixei a minha energia aberta para ela e à sua disposição. Inconscientemente, ela sabia que eu era um alvo fácil para sugar atenção e suprir de alguma maneira aquelas faltas que ela sente. Mas, dessa vez, decidi me proteger. Chega a maturidade, a capacidade de não se anular pelo outro, apesar de ser alguém importante na sua história de vida, e de entender os limites de cada situação. É assim que crescemos e quem fica é para valer. Isso à beira dos meus quarenta.



