quinta-feira, 9 de abril de 2026

Quem é o culpado?

Quem é o culpado? 

Atualmente, estou relendo “Os noivos” (1840/42), de Alessandro Manzoni, com um aluno meu, e uma das partes de que gosto mais é quando se fala da peste de 1630 em Milão e de como a população reagia perante um flagelo desse. 

O povo, dizimado e prosternado pela doença, precisa achar uma razão para a epidemia horrível que está acontecendo. Racionalizar aquilo de alguma maneira, mesmo que a forma seja a mais irracional possível. 

Quem é o culpado? 

Quando há uma situação de difícil resolução, cujas causas poderiam envolver também atitudes pessoais, o mais fácil a fazer é se perguntar: quem é o culpado? Lembremos que, no meio da epidemia de peste de 1630, descrita no livro, os decuriões pediram ao Cardeal Federigo Borromeo para organizar uma procissão com as relíquias de São Carlos para exorcizar a doença. O resultado dessa aglomeração nem é preciso comentar.
Aglomeração = ...

Portanto, quem é o culpado? É necessário achar. 

Nem que seja só pela possibilidade de dizer: não fui eu e, finalmente, ter com quem se zangar. O ser humano, independentemente da época histórica, tem uma tendência a justificar as próprias atitudes e a olhar com reprovação as dos outros. Como se na divisão do bem e do mal, numa perspectiva maniqueísta, ele estivesse sempre envolvido na esfera do bem, incapaz de se enxergar em toda a sua complexidade, mas conseguindo, sim, enxergar o próximo em todas as suas imperfeições, invejas e maldades.

Os culpados pela peste eram os assim chamados "untori", pessoas que iam às ruas com pequenos frascos com um óleo infectado, aspergindo-o e incentivando o proliferar da doença. Assim, por fim, havia um culpado. Havia alguém com quem se zangar. 

Essa é uma dinâmica coletiva da qual tiram grande proveito os governantes para criar divisões funcionais: na Itália e nos Estados Unidos, o problema são os migrantes; no Oriente Médio, são os muçulmanos terroristas; e poderíamos seguir ao infinito com a longa cadeia de lugares comuns, infundados e racistas. 

Mas o que me interessa hoje é comparar essa forma de agir do ser humano com uma esfera particular. Como agimos quando pensamos em nossas vidas, quando as coisas não funcionam, quando temos uma frustração ou algo não foi exatamente como queríamos? Tenho observado, por experiência própria, que a dinâmica não muda, nos enxergamos sempre como o bem, vendo no outro o mal, a causa do nosso mal-estar, a razão do desencadear-se de algo que tem a ver exclusivamente com a gente. Só conosco. Escutando amigas/amigos, conhecidas/os, familiares, tenho ficado bastante pensativa. As pessoas, na maioria das vezes, parecem incapazes de fazer uma leitura dos próprios erros, das próprias faltas e sempre tendem a culpar o outro por algo que não chegou a acontecer, por algo que lhes falta, por algo que aconteceu; pela sua infelicidade ou incapacidade de perceber que felicidade pode ser simples equilíbrio.

Eu mesma tenho sido alvo dessa dinâmica. Tenho sido a "untora" de alguém e isso tem me afetado profundamente. Uma pessoa me disse, em uma discussão, onde ela estava insatisfeita com tudo, que eu, e nada menos do que eu, era a causa dos problemas de autoestima dela. Eu pensei: como isso poderia ser possível? Sempre tentei colocá-la para cima, sempre usando uma palavra para deixá-la bem, tentando envolvê-la em situações e dinâmicas sociais. Isso me deixou muito desconcertada. Tenho passado noites sem dormir, acordando e revendo a pessoa apontando o dedo para mim e dizendo: "por sua causa tenho problema de autoestima". Quando eu lhe disse que esse sentimento falava muito mais sobre ela, a resposta foi que se isso acontecia SÓ comigo, eu tinha que me questionar. Fiquei transtornada. 

Revisitando os fatos, eu tenho me feito não uma, mas muitas perguntas, e a única resposta que tenho é que, quando a dificuldade em enfrentar os próprios fantasmas é muito grande, a solução mais fácil é atribuir ao outro a causa dos nossos problemas, pois isso nos poupa de perguntas, dúvidas, ansiedade, capacidade de se aceitar como uma pessoa imperfeita, capacidade de aceitar os outros como eles são. 

Observando o entorno de amizades dessa pessoa, tenho me perguntando se ela faria a mesma coisa com outr* amig* e a resposta é: não. 

A partir desta reflexão, cheguei a uma conclusão: as pessoas dizem e fazem conosco só aquilo que  permitimos. Essa pessoa especificamente jamais faria isso com outros, mas se sentiu à vontade para fazê-lo comigo, porque sempre fui, de alguma maneira, atenciosa com ela, sempre deixei a minha energia aberta para ela e à sua disposição. Inconscientemente, ela sabia que eu era um alvo fácil para sugar atenção e suprir de alguma maneira aquelas faltas que ela sente. Mas, dessa vez, decidi me proteger. Chega a maturidade, a capacidade de não se anular pelo outro, apesar de ser alguém importante na sua história de vida, e de entender os limites de cada situação. É assim que crescemos e quem fica é para valer. Isso à beira dos meus quarenta. 





quarta-feira, 16 de abril de 2025

A última coca-cola do deserto



Noites quentes, Beijo, Último dorito do pacote, Um dia amadureço, Recuperei a dignidade


Esses são só alguns dos nomes de esmaltes comercializados no Brasil. Como minha irmã vinha da Itália me visitar e cada um tem sua história, pensei em presenteá-la com esmaltes que tivessem nomes significativos e que conversassem com uma fase da vida dela. 


No início da minha vida no Brasil, eu não tinha grana para fazer as mãos em salão, ainda trabalhava como estagiária (não paga) para o Instituto Italiano de Cultura e tinha que viver do que tinha guardado com o meu trabalho na Itália, mas esmaltes sempre usei. 


Ficava horas parada nas farmácias, só me perdendo entre as cores e os nomes mirabolantes dos esmaltes (aliás, o fato de ter esmalte em farmácia, para mim, também era uma coisa inusitada). Pensava que coisa mais diferente dar um nome para esmalte! O nome podia conversar com a cor ou, na realidade, com uma sensação transmitida pela cor, ou, simplesmente, com a mensagem que aquela linha queria passar. E todos, exatamente todos os nomes de esmaltes, de uma maneira ou de outra, têm a ver com as vidas das mulheres. De forma irônica, sarcástica ou real. Às vezes comprei esmaltes só pela sensação de empoderamento que me transmitiam. 


Ainda me lembro do nome mais simples e mais deslumbrante de todos: Nunca fui santa, vermelho carmim. Me pergunto se isso, mesmo sendo um achado publicitário, não tenha a ver também com uma forma toda brasileira de viver a vida. Pode parecer um clichê, ou uma forma exotizada de ver o Brasil, mas esses nomes de esmaltes, na sua simplicidade, trazem luz e alegria, mesmo que por vezes seja com sarcasmo, ao dia a dia. 


Quem não quer se sentir O último dorito do pacote ou A última coca-cola do deserto depois de algum macho-escroto ter sumido do nada e ter feito ghosting? Quem não precisa de Noites quentes no meio de semanas entediadas e sempre iguais, ou não gostaria de ouvir, ao voltar para casa: Leo mandou flores


Sem pensar que, entre as últimas linhas da Risquê, Vivendo do meu jeito, encontramos esmaltes que dão legitimidade a outras formas de entender o trabalho, dando brilho e cor àquelas que contracorrente não trabalham no mundo corporativo, não trabalham no ritmo da carteirização do trabalho, 8 horas por dia, e decidem, por fim, viver da própria arte, como lembra o esmalte Vivendo da minha arte, um verde claro em tom pastel. 

Penso sobre como essas são conquistas femininas tardias: a possibilidade de criar (ter o tempo e, alguém mais importante que eu dizia, um teto todo seu) ou até mesmo pensar em poder viver do que se cria, assim essa linha de esmalte nos lembra —para que nunca esqueçamos— que A artista sou eu ou Eita como cria


Já cansei de dar de presente Linda, leve e nude ou Rainha da pista toda sem esquecer da linha Livre para brilhar, com os esmaltes Dona da festa, Já acordo divando ou ainda Chega e arrasa, pena que esse último tem demasiado glitters, senão ia botar para todas as provas e concursos que fiz nos últimos anos como forma de training autógeno. 


Esses esmaltes possuem pequenas mensagens que me parecem trazer um risco (só para ficar em temas coloríferos) de alegria num cotidiano muitas vezes cansativo, esgotante e sem cor. Acredito também que essa ideia, mesmo que possa ter algo similar em algum outro lugar, me remete muito a um certo caráter brasileiro batalhador, que sempre olha para novos desafios, nunca se cansa e sempre acha novas motivações para seguir em frente. Porque vale sempre a pena lembrar que Antes sol que mal iluminada


sábado, 1 de fevereiro de 2025

Lua nova em aquário - ciclos terminam/ciclos se abrem

Frestas/ entre-matérias: a saudade será uma imagem listrada cavada na retina, um som de chuva leve, um cheiro de grama molhada. 





terça-feira, 13 de junho de 2023

Estética do guarda-chuva ou da difícil sobrevivência em épocas de boçalidades


É dia de chuva e todo o mundo está com pressa, como em qualquer dia útil, subindo e descendo pelas escadas do metrô. Tentando conquistar o ônibus e se esquivando, ao mesmo tempo, da onda de água que a roda daquele meio de transporte gerará. 

É nesses dias de chuva que há duas coisas ainda mais impetuosas, ainda mais desafiadoras a serem cumpridas. Para os que como eu sempre esquecem de sair com guarda-chuva, ou mesmo quando lembram, o esquecem no primeiro lugar onde param, começa uma batalha renovada a cada passo para a conquista de um espaço coberto à beira dos prédios. Marquises, parapeitos, beirais, galerias nas fachadas dos prédios, tudo serve. Ou melhor, tudo serviria, se não fosse o fato de que quem já tem o guarda-chuva, em vez de ficar no merecido lugar de exposição aquática, como forma de prêmio por ter lembrado de levar o tão valioso objeto ou ainda por não tê-lo esquecido em lugar nenhum, se acha no direito de andar embaixo de marquises, parapeitos e beirais com o guarda-chuva aberto. Para quem se choca com essas pessoas no verso oposto ou no mesmo verso, só sobra a parte externa da rua, posição piorada pelo fato de esses grandes guarda-chuvas azul cobalto dos senhores sempre-levo-guarda-chuva-e-nunca-o-esqueço-em-lugar-nenhum gotejarem água em abundância pelas extremidades do esqueleto metálico que funciona como corredor de transporte de pequenos rios. Por que azul cobalto? O guarda-chuva desse tipo de pessoa sempre será azul cobalto, são seres lógicos, previsíveis, calculadores e organizados; os guarda-chuvas estampados são da outra metade que não o leva ou que quando o leva, esquece. Estes são seres ilógicos, imprevisíveis, desprendidos e definitivamente desorganizados. 

Sem querer ainda tirar conclusões, vamos ao segundo enfrentamento. A segunda prova. A chuva finalmente diminui. Dá descanso para as pobres formigas que se movimentam pela cidade, trabalhando incansavelmente em prol de uma riqueza que não lhes pertence. Não só essas pobres formigas trabalhadoras fazem as contas com as próprias tristezas, solidões e preocupações com café que em épocas de inflação chega a custar R$ 19,90, mas ainda devem tentar fugir do risco de serem espetados. Como assim espetados? Dirá o leitor, que acha tal colocação um exagero. Pois é, parece difícil de entender, mas não o é. Os mesmos senhores sempre-levo-guarda-chuva-e-nunca-o-esqueço-em-lugar-nenhum, ao fecharem o guarda-chuva, não conseguem deixá-lo em uma posição vertical, como qualquer pessoa dotada de bom senso faria. Não, eles não. Eles seguram o guarda-chuva grande, azul cobalto e com ponta grande de aço bem cintilante, horizontalmente. O que pode provocar um guarda-chuva segurado em posição horizontal? Ora bem, não há de se esquecer que essas pessoas não se limitam simplesmente a manter em posição horizontal um objeto de cerca de 60 cm, elas o balançam e o sacodem de trás para frente e de frente para trás. A ponta de metal. Medição de cerca de 60 cm. Posição horizontal. Resultado: espetar as pessoas. Sempre me encontro andando ou na frente ou atrás de um desses senhores tudo-levo-e-nada-esqueço que não percebem que o guarda-chuva ou espeta alguém atrás (na maioria das vezes eu, euzinha mesma) ou se choca com alguém na frente (na maioria das vezes eu, euzinha mesma). 

E quando a batalha termina, finalmente em casa fica a amargura de um dia de chuva ser muito mais que um casaco molhado. Qual o denominador comum que alimenta e impulsiona essas duas atitudes: andar com guarda-chuva embaixo de lugares cobertos que poderiam abrigar os desprovidos de tais ferramentas e segurar o mesmo objeto pontudo de cerca de 60 cm horizontalmente, balançando-o de maneira a espetar quem estiver por perto? O fato de não perceber o corpo do outro e suas necessidades. O fato de estar na rua como se está na própria casa, e se isso às vezes pode até ser bom, porque ressignifica o espaço público de memórias pessoais, por outro lado, e nesse caso específico particularmente, me faz pensar na incapacidade de viver o espaço público como lugar do coletivo e no egoísmo de transformá-lo em um grande espaço privado, e disso nunca saiu coisa boa.