beleza é restos de anseio de voar.
Relatos urbanos de uma gringa
terça-feira, 22 de julho de 2025
quarta-feira, 16 de abril de 2025
A última coca-cola do deserto
Noites quentes, Beijo, Último dorito do pacote, Um dia amadureço, Recuperei a dignidade.
Esses são só alguns dos nomes de esmaltes comercializados no Brasil. Como minha irmã vinha da Itália me visitar e cada um tem sua história, pensei em presenteá-la com esmaltes que tivessem nomes significativos e que conversassem com uma fase da vida dela.
No início da minha vida no Brasil, eu não tinha grana para fazer as mãos em salão, ainda trabalhava como estagiária (não paga) para o Instituto Italiano de Cultura e tinha que viver do que tinha guardado com o meu trabalho na Itália, mas esmaltes sempre usei.
Ficava horas parada nas farmácias, só me perdendo entre as cores e os nomes mirabolantes dos esmaltes (aliás, o fato de ter esmalte em farmácia, para mim, também era uma coisa inusitada). Pensava que coisa mais diferente dar um nome para esmalte! O nome podia conversar com a cor ou, na realidade, com uma sensação transmitida pela cor, ou, simplesmente, com a mensagem que aquela linha queria passar. E todos, exatamente todos os nomes de esmaltes, de uma maneira ou de outra, têm a ver com as vidas das mulheres. De forma irônica, sarcástica ou real. Às vezes comprei esmaltes só pela sensação de empoderamento que me transmitiam.
Ainda me lembro do nome mais simples e mais deslumbrante de todos: Nunca fui santa, vermelho carmim. Me pergunto se isso, mesmo sendo um achado publicitário, não tenha a ver também com uma forma toda brasileira de viver a vida. Pode parecer um clichê, ou uma forma exotizada de ver o Brasil, mas esses nomes de esmaltes, na sua simplicidade, trazem luz e alegria, mesmo que por vezes seja com sarcasmo, ao dia a dia.
Quem não quer se sentir O último dorito do pacote ou A última coca-cola do deserto depois de algum macho-escroto ter sumido do nada e ter feito ghosting? Quem não precisa de Noites quentes no meio de semanas entediadas e sempre iguais, ou não gostaria de ouvir, ao voltar para casa: Leo mandou flores.
Sem pensar que, entre as últimas linhas da Risquê, Vivendo do meu jeito, encontramos esmaltes que dão legitimidade a outras formas de entender o trabalho, dando brilho e cor àquelas que contracorrente não trabalham no mundo corporativo, não trabalham no ritmo da carteirização do trabalho, 8 horas por dia, e decidem, por fim, viver da própria arte, como lembra o esmalte Vivendo da minha arte, um verde claro em tom pastel.
Penso sobre como essas são conquistas femininas tardias: a possibilidade de criar (ter o tempo e, alguém mais importante que eu dizia, um teto todo seu) ou até mesmo pensar em poder viver do que se cria, assim essa linha de esmalte nos lembra —para que nunca esqueçamos— que A artista sou eu ou Eita como cria.
Já cansei de dar de presente Linda, leve e nude ou Rainha da pista toda sem esquecer da linha Livre para brilhar, com os esmaltes Dona da festa, Já acordo divando ou ainda Chega e arrasa, pena que esse último tem demasiado glitters, senão ia botar para todas as provas e concursos que fiz nos últimos anos como forma de training autógeno.
Esses esmaltes possuem pequenas mensagens que me parecem trazer um risco (só para ficar em temas coloríferos) de alegria num cotidiano muitas vezes cansativo, esgotante e sem cor. Acredito também que essa ideia, mesmo que possa ter algo similar em algum outro lugar, me remete muito a um certo caráter brasileiro batalhador, que sempre olha para novos desafios, nunca se cansa e sempre acha novas motivações para seguir em frente. Porque vale sempre a pena lembrar que Antes sol que mal iluminada.
sábado, 1 de fevereiro de 2025
Lua nova em aquário - ciclos terminam/ciclos se abrem
Frestas/ entre-matérias: a saudade será uma imagem listrada cavada na retina, um som de chuva leve, um cheiro de grama molhada.
terça-feira, 13 de junho de 2023
Estética do guarda-chuva ou da difícil sobrevivência em épocas de boçalidades
É nesses dias de chuva que há duas coisas ainda mais impetuosas, ainda mais desafiadoras a serem cumpridas. Para os que como eu sempre esquecem de sair com guarda-chuva, ou mesmo quando lembram, o esquecem no primeiro lugar onde param, começa uma batalha renovada a cada passo para a conquista de um espaço coberto à beira dos prédios. Marquises, parapeitos, beirais, galerias nas fachadas dos prédios, tudo serve. Ou melhor, tudo serviria, se não fosse o fato de que quem já tem o guarda-chuva, em vez de ficar no merecido lugar de exposição aquática, como forma de prêmio por ter lembrado de levar o tão valioso objeto ou ainda por não tê-lo esquecido em lugar nenhum, se acha no direito de andar embaixo de marquises, parapeitos e beirais com o guarda-chuva aberto. Para quem se choca com essas pessoas no verso oposto ou no mesmo verso, só sobra a parte externa da rua, posição piorada pelo fato de esses grandes guarda-chuvas azul cobalto dos senhores sempre-levo-guarda-chuva-e-nunca-o-esqueço-em-lugar-nenhum gotejarem água em abundância pelas extremidades do esqueleto metálico que funciona como corredor de transporte de pequenos rios. Por que azul cobalto? O guarda-chuva desse tipo de pessoa sempre será azul cobalto, são seres lógicos, previsíveis, calculadores e organizados; os guarda-chuvas estampados são da outra metade — que não o leva ou que quando o leva, esquece. Estes são seres ilógicos, imprevisíveis, desprendidos e definitivamente desorganizados.
Sem querer ainda tirar conclusões, vamos ao segundo enfrentamento. A segunda prova. A chuva finalmente diminui. Dá descanso para as pobres formigas que se movimentam pela cidade, trabalhando incansavelmente em prol de uma riqueza que não lhes pertence. Não só essas pobres formigas trabalhadoras fazem as contas com as próprias tristezas, solidões e preocupações com café que em épocas de inflação chega a custar R$ 19,90, mas ainda devem tentar fugir do risco de serem espetados. Como assim espetados? Dirá o leitor, que acha tal colocação um exagero. Pois é, parece difícil de entender, mas não o é. Os mesmos senhores sempre-levo-guarda-chuva-e-nunca-o-esqueço-em-lugar-nenhum, ao fecharem o guarda-chuva, não conseguem deixá-lo em uma posição vertical, como qualquer pessoa dotada de bom senso faria. Não, eles não. Eles seguram o guarda-chuva grande, azul cobalto e com ponta grande de aço bem cintilante, horizontalmente. O que pode provocar um guarda-chuva segurado em posição horizontal? Ora bem, não há de se esquecer que essas pessoas não se limitam simplesmente a manter em posição horizontal um objeto de cerca de 60 cm, elas o balançam e o sacodem de trás para frente e de frente para trás. A ponta de metal. Medição de cerca de 60 cm. Posição horizontal. Resultado: espetar as pessoas. Sempre me encontro andando ou na frente ou atrás de um desses senhores tudo-levo-e-nada-esqueço que não percebem que o guarda-chuva ou espeta alguém atrás (na maioria das vezes eu, euzinha mesma) ou se choca com alguém na frente (na maioria das vezes eu, euzinha mesma).
E quando a batalha termina, finalmente em casa fica a amargura de um dia de chuva ser muito mais que um casaco molhado. Qual o denominador comum que alimenta e impulsiona essas duas atitudes: andar com guarda-chuva embaixo de lugares cobertos que poderiam abrigar os desprovidos de tais ferramentas e segurar o mesmo objeto pontudo de cerca de 60 cm horizontalmente, balançando-o de maneira a espetar quem estiver por perto? O fato de não perceber o corpo do outro e suas necessidades. O fato de estar na rua como se está na própria casa, e se isso às vezes pode até ser bom, porque ressignifica o espaço público de memórias pessoais, por outro lado, e nesse caso específico particularmente, me faz pensar na incapacidade de viver o espaço público como lugar do coletivo e no egoísmo de transformá-lo em um grande espaço privado, e disso nunca saiu coisa boa.
terça-feira, 3 de março de 2020
Brazilian wax - ou de quando outras mulheres querem cavar a sua virilha
| Thema - Anatomical roots |
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Performance de Deborah De Robertis (maio 2014),
na frente do quadro de Gustave Courbet "A origem do mundo" (1866).
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| Técnica de depilação de um desses salões. |
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| Meme de Fantaghirò. Tradução: "Tranquila, vamos cortar só as pontas". |
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| Man Ray - Erotique voilée, 1933. |






